Sandra Belê - Encarnado Azul

Os processos de urbanização, junto com os avanços da globalização, acabam por sufocar e reprimir traços culturais típicos das mais diversas regiões brasileiras. Navegando contra a corrente, Sandra Belê, natural de Zabelê, Paraíba, lançou por vias independentes seu terceiro disco, “Encarnado Azul” em 2011. Com concepção musical e arranjos de Romério Zeferino e da própria artista, trata-se de uma bela incursão pelo “Pastoril”, festividade local do povo paraibano.
Com um pé na tradição e outro na contemporaneidade, respeitando e preservando a natureza e riqueza das variadas vertentes da nossa música tupiniquim, Sandra coloca seu DNA em dez canções, evidenciando a beleza do Pastoril, gênero que merece um olhar mais cuidadoso e atento dos amantes de expressões oriundas das nossas raízes brasileiras. É um disco consistente, que presta um serviço público a nossa música. Ou, como a própria Sandra afirma no encarte dele: "tem a musicalidade que a minha avó conhece bem, e também a que ela chama de "coisas de jovens". Podemos tratá-lo de som globalizado, a quem chame de "Regional Progressivo". Este é o som do Encarnadoazul".
A sanfona já chama a atenção em “A entrada”. Quando Sandra começa a cantar, a voz “te pega”, que inclusive faz um contraponto interessante com os vocais de Gina Góis e Lucineide Silva. Essa primeira canção tem cheiro de interior, daqueles que resistem a industrialização de tudo e todos. A letra funciona como cartão de visitas: “meus senhores e senhoras, queiram desculpar, que a nossa jornada já vai começar”. Melodicamente, surpreende o ouvinte.
“Saudação” é mais lenta: dá para dançar agarradinho, cheirando o cangote do parceiro (a). A percussão de Sandrinho Dupan contribui com o clima gostoso, além disso, a guitarra forte marca espaço no arranjo como um todo: ponto para Cláudio Coruja.
“Mestra, contra-mestra e a Diana” conta com o trompete espetaculoso de Fernando Araújo. O refrão, que repete as palavras, ajuda a “pregar” a letra na cabeça do ouvinte: “Mestra, com, Mestra, Contra-Mestra, com, Mestra, Contra-Mestra com Mestra contra, Diana”. Fica uma sensação de leveza e de... Touradas, Espanha? Sim.
“A Diana” tem mudanças de andamento interessantes, o que mostra uma estrutura melódica diferenciada. Notem quando ela canta: “senhores todos prestem atenção”. Dá vontade de dizer: já estamos fazendo isso querida Sandra, desde o começo dessa audição. Fique tranquila. A bateria de Tonny Lira se destaca.
“Senhor José” conta com a sanfona mais do que bem vinda de João Batista. Nessa faixa, o ouvinte se sente mais ainda em plena Paraíba.
“Encarnadoazul” é uma viagem. Culpa do vocal de apoio de Gina Góis e Lucineide Silva (justiça seja feita: essas duas moças brilham nesse disco em suas aparições), que nos transporta para o passado, sensação de nostalgia. É uma música leve, alto-astral. Também me lembrou da Jovem Guarda: diga-me depois se você também achou isso, pode ser? Ah: a voz da Sandra desliza no arranjo...
As palmas de Nalenkya e Dandara Zeferino marcam “A borboleta”. Aqui, Sandra canta com mais força, evocando ainda mais o universo homenageado (Pastoril). É a melhor canção desse disco, é misteriosa também. A percussão de Sandrinho Dupan é gostosa de escutar.
Em “A cigana” o sotaque carregado da nossa cantora dá um colorido a mais. Nessa faixa, o ritmo vai mudando, vira uma verdadeira “farra” musical, por fim, uma pequena delícia de pouco mais de cinco minutos.
“O palhaço” tem letra que “cutuca” as desigualdades sociais: “o patrão mais a patroa, comem sua boa salsicha, olê, lê ô... E eu cá mais parafuso, nós se acaba é na linguiça, o patrão mais a patroa, dormem bem no seu belo colchão, e eu cá mais parafuso, nós dorme mesmo é no caixão”. Mesmo com a crítica social (leve), a interpretação é descontraída, amenizando o discurso. A sanfona de João Batista chega e “gruda” no ouvido. É uma das faixas mais dançantes.
“Despedida”, como o próprio nome já diz, é “a saideira” de um álbum curto, porém, consistente, que diz a que veio. A letra ilustra o brasileiro genuíno: “às quatro horas da manhã o galo canta, que já deu hora, com que saudade eu me retiro, eu não vim para ficar, às quatro horas da manhã, o galo canta que já deu hora, quando a moreninha suspira, soluça e chora”. Na última estrofe, Sandra canta: “adeus, adeus, ó linda Mestra, já pode se retirar, adeus, adeus, só para o ano, quando a pastorinha aqui voltar”. Uma bela saída de cena: até a próxima Sandra Belê.
Escute o CD aqui:
1º A entrada
2º Saudação
3º Mestra, contra-mestra e a Diana
4º A Diana
5º Senhor José
6º Encarnadoazul
7º A borboleta
8º A cigana
9º O palhaço
10º Despedida





















